Num artigo de opinião publicado esta segunda-feira no Jornal de Notícias (JN), o investigador e professor universitário Manuel Carvalho da Silva recupera as três ideias chave da participação enquanto orador no COTEC Europe Summit, organizado pela COTEC Portugal, no passado dia 7 de fevereiro, em Mafra, sob o tema Work 4.0.

O também antigo líder da CGTP-IN enfatiza a atualidade do tema do “futuro do trabalho à luz da nova vaga tecnológica que tem como base uma utilização mais intensa do digital, da robotização e, em particular, da inteligência artificial” e realça que se denota “uma tendência para se discutir o emprego futuro quase só debaixo do paradigma tecnológico e com o enfoque na presumível destruição de emprego”. Essa tendência, segundo o investigador, deve-se ao facto de que tais cenários, de “desastres e calamidades”, ganham audiências. É chegada a altura, refere Carvalho da Silva, de perguntar, “porque não se especula da mesma forma sobre as extraordinárias possibilidades de criação de novo emprego, de emprego mais qualificado, mais motivador, menos penoso e melhor retribuído? E qual a razão pela qual não se discute, com impacto público, a resolução de outros problemas que nos permitam ter mais e melhor emprego?”

Enquanto orador convidado no painel “Um Futurista, um Sociólogo e um Humorista em diálogo sobre o trabalho 4.0”, Carvalho da Silva deixou três observações que resgata nas páginas da edição do JN.

A primeira está relacionada com “duas narrativas acerca do emprego que, no senso comum, surgirão como um paradoxo: enquanto se anuncia que os robots destruirão postos de trabalho por todo o lado, temos responsáveis empresariais da metalomecânica, do turismo, do calçado, da restauração e de outros serviços a dizerem […] que faltam dezenas de milhares de trabalhadores para projetos empresariais já no terreno ou em perspetiva”. Para o investigador, esta questão torna clara a urgência do debate sobre “políticas que estanquem a emigração dos jovens, sobre formações e qualificações ajustadas ao nosso desenvolvimento, sobre o emprego público indispensável à melhor prestação de direitos fundamentais, sobre a diversificação da estrutura económica, sobre a melhoria dos salários e de um consumo interno que ajude a elevar o nível de vida da maioria dos portugueses”.

A segunda observação é a de que em Portugal, na Europa e globalmente “está claramente esgotado um regime de acumulação” em se verifica a articulação do “esmagamento dos salários e o agravamento das desigualdades com a expansão do crédito bancário para produzir uma ilusão de estabilidade e crescimento”. A solução é apostar numa “mais justa distribuição da riqueza: para se eliminarem carências e excessos que vivem lado a lado”, “para que possa surgir esse investimento criador de emprego útil, motivador e qualificado, mesmo que também ampliador do número de robots”.

A terceira ideia chave realça que “o problema não está nas tecnologias” e que “elas só são responsáveis pelas nossas desgraças se forem usadas para nos oprimir. Num mundo um pouco melhor, as tecnologias novas podem servir para nos libertar, nomeadamente, de trabalho rotineiro, pesado, opressivo e de longos horários.” É um facto que as novas tecnologias destroem e criam emprego; provocam alterações nas profissões, nos perfis profissionais, exigem novas competências e qualificações, reformulação de regulações do trabalho “mas não as dispensam”.

A conclusão de Manuel Carvalho da Silva é que as tecnologias devem ser usadas para nosso proveito, mediante os objetivos e o caminho coletivo, democrático e justo que traçamos: “as tecnologias não têm de ser as terminantes da nossa vida, mas antes determinadas pelo que queremos fazer da vida. Coletivamente temos a obrigação de garantir conexão entre as dimensões económica, social, cultural e política que enquadram e normalizam uma sociedade desenvolvida e democrática”.

Fonte: JN